O drama grego na narrativa dos Vingadores

O último filme dos vingadores levanta alguns debates pertinentes sobre o que somos ou o que fazemos na nossa contemporaneidade, mas é necessário primeiro falar dos spoilers. Acredito que existam dois motivos para esse tipo de situação irritante no mundo das narrativas: a primeira é a intencionalidade em causar dano (é feito de propósito mesmo); a segunda parece estar ligada à incompetência do sujeito em fazer construir uma abordagem neutra, ricamente filosófica e artística, sem empobrecer os meandros da narrativa como um todo e promover os terríveis spoilers. Até que ponto a interpretação textual está ocorrendo sem prejudicar o todo da obra analisada?

Dito isso, vamos para as análises. Não citarei personagens, eventos ou quaisquer elementos diretamente presentes no filme Vingadores: ultimato. Mas sua essência merece um cuidadoso olhar na área das ciências humanas, sobretudo no campo das Letras, da Antropologia e da Filosofia. O que se pretende aqui, em linhas gerais, é fomentar o debate para os estudiosos se apropriarem mais detidamente.
Qual é o destino de um herói? Por quem ele luta? O que ele defende? É um dom ou uma maldição?
Essas perguntas nos perseguem desde da Grécia Antiga, sistematizada com maestria no livro “O Mito do Herói”, de Joseph Campbell. O herói carrega o potencial sobre-humano que nos encanta para fazer a diferença, mas como uma balança da vida, noutro lado encontram-se as frustrações indesejáveis por todos nós: a mãe que nunca veremos, filhos mortos sem a menos possibilidade de defesa.
Somando a Campbell, as estruturas narrativas nos ajudam a acompanhar esse drama no curso da vida destes heróis com textos de autores como Christopher Vogler, Tzevtan Todorov e Vladmir Propp. Ainda que o passado carregue o medo e a frustração de uma grande perda para cada herói, o que este procura ao enfrentar o perigo quando todos dele se afastam? Auto promoção? Superação? Busca do suicídio? Os autores citados nos dão a dica: propósito!

O propósito torna-se mais forte quando os laços de amizade e, principalmente, familiares, vão se construindo no desenvolvimento da narrativa. A completa solidão caracterizada pelo drama do herói dá lugar ao aconchego do filho, ao colo da esposa e isso gera um diferencial, um motivo mágico que vale o sacrifício, o enfrentamento e a luta pelo inusitado: se as chances forem de 1 em 1 milhão, vale lutar por essa única oportunidade, vale apena acreditar. O impulso está menos no poder do que se pode imaginar, pois interessa ao herói proteger a todos, mas em primeiro lugar aquele amor construído no trânsito do seu drama.
E como termina esse percurso do herói se ele parece caminhar diariamente entre a destruição e a renovação de forças? Nos parece que o drama inevitável da morte é o que o acompanha, como um curso inexorável dos acontecimentos, pois é parte do herói o auto sacrifício para um bem maior, como a paz, o amor, a amizade, a família.

Mas tudo isso é teoria literária (bem básica para o público leigo mesmo). O que me chamou a atenção é a humanidade que os heróis de Vingadores carregam e nos joga diante de nós, como uma realidade esquecida pela velocidade dos acontecimentos na narrativa e (por que não) na vida: herói somos todos nós! Cada um carrega um super herói, seu drama, seus sonhos, sua vontade de se lançar ao perigo e proteger quem ama. Herói é o homem simples, que envelheceu bravamente superando as dificuldades, lutando pelo emprego, criando seus filhos com dignidade e exemplos que serão o guia para as gerações futuras. Volto a dizer: a maior lição no último capítulo (se é que podemos chamar assim) de Vingadores, é a certeza não apenas dos nossos heróis que tanto significa, mas que nossos pequenos atos diários são carregados de heroísmo na mesma medida dos dramas gregos. Heróis somos todos nós!