Saindo do senso comum: um pouco sobre educação e práxis política

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Como se não bastasse convivermos com um governo em volta da manutenção da economia fragilizada sob a intencionalidade da criação de uma “pátria educadora”, o que encontramos nos últimos dias foram equívocos de diversas vozes na sociedade sobre o fazer pedagógico destes profissionais e o seu valor numa sociedade que almeja alcançar uma significativa trajetória de sucesso numa futura, mas pouco presente, sociedade do conhecimento.
Falas que foram observadas nas redes sociais:
1. Professor está mais para Black block.
2. Professor ganha pouco.
3. Ninguém quer ser professor.
4. É tudo funcionário público, pois em escola particular isso não acontece se fosse com CLT….

Black Block, greves e conhecimento
Desde já um apontamento que todos se esquecem principalmente em nações periféricas ocidentais: a ferramenta de trabalho do professor é o conhecimento. Oras, se o profissional tem o conhecimento de como neutralizar os efeitos do gás lacrimogênio, qual é o problema nisso? Argumentaram que isso indicaria que já havia uma pré-disposição para o combate. Isso pode ser verdade, pois num país em que as manifestações são vistas muitas vezes como inimigas da democracia (porque atrapalham o fluxo do trânsito, porque reclamam no lugar de trabalhar mais, etc) normalmente o ato pacífico termina em violência – e quando a tropa de choque avança, não há mais como seus comandantes conterem a força desproporcional que o braço do Estado exerce sobre seu cidadão. Agora, associar luta sindical com Black block beira o fundamentalismo de direita, querendo invalidar a luta trabalhista, presente desde a Revolução Industrial Inglesa com objetivos claramente definidos – a valorização do operário.

Professor ganha pouco?
Para um país que se diz envolvido com a educação, ganha pouco sim! Não existe uma política de incentivo salarial, de formação em pós-graduação de qualidade, não existe nem o fomento salarial para uma vida regada na cultura e muito menos uma política pública de bolsas de incentivo ao uso dos aparelhos culturais, como bolsa teatro, bolsa livro, bolsa jornal. Entre os profissionais de nível superior, ser professor soa quase como uma piada de humor negro, seja pela formação precária dos cursos vergonhosamente aprovados pelo MEC, seja pela longa jornada que obriga o Educador a abrir mão de sua qualidade como sujeito pensante: não há tempo para o teatro, para o cinema, para a leitura – simplesmente porque é necessário dar aulas para sobreviver. Isso é um caro engano dos nossos políticos e administradores que pensam que é dispensável o fator cultural na prática educativa e cultura custa caro e demanda tempo: o ócio criativo torna-se um inimigo num país capitalista atrasado. Vítima de um Estado que aprova a oferta de cursos de qualidade duvidosa, o professor é mal formado e nem durante seu ofício encontra nem no salário nem na política alguma forma de melhorar seu desempenho como docente e sua vida como operário.

Se fosse pela CLT isso não aconteceria.
Num momento em que se aprovam as terceirizações, essa afirmação soa mais como um problema do que uma qualidade na vida dos trabalhadores. Contrário à qualquer tipo de manifestação popular, o patrão tende a demitir do que a abrir um canal de negociações. Isso é uma visão estreita do capitalismo, pois a máquina funciona de uma forma muito simples: profissional valorizado é consumidor, que injeta no mercado parte dos seus ganhos, gerando mais economia e renda para os demais participantes. Sugerir que a terceirização e a aplicação da CLT em toda a rede educacional acabaria com o problema é um engodo da direita, pois as paralisações existem muito antes de qualquer lei trabalhista existir. A mobilização sindical tem como raiz a relação entre o operário e o seu patrão e esse jogo de forças desemboca muitas vezes (numa triste história) no uso da violência para obrigar todos a voltarem aos seus postos de trabalho. Defensores da CLT apenas estão preocupados com um trabalhador que não é sujeito do seu ofício, despolitizado e inserido numa rotina em que executar é mais importante do que pensar. Mas na educação isso não procede. Mesmo com deficiências materiais e de formação isso é claro entre os docentes: seu ofício necessita ser valorizado na sociedade, se esta quiser sair do status quo de “repúblicas de bananas”, exportador de jogadores de futebol e outras míseras riquezas de pouco impacto no mundo globalizado.

 

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O que queremos deixar claro neste texto é o que nossos parceiros comerciais desenvolvidos compreenderam em sua maioria: tecnologia se faz com uma sólida rede de saberes que passam pelo prédio, pelo equipamento, mas principalmente pelas relações humanas (e por isso culturais) entre os sujeitos do processo: educador e educando. Valorizar a escola, o salário e a formação docente é inserir de fato o Brasil no desenvolvimento tecnológico, econômico e social. O resto que se diga é politicalha e discurso para enganar os menos esclarecidos e esconder nossa incompetência histórica para lidar com o tema de forma satisfatória.

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