História, cultura, preconceito e jogos eletrônicos.

A história do século XX no que tange as culturas de massa denunciou determinados pré conceitos em relação às práticas de leitura, lazer e artes originadas e desenvolvidas muitas vezes às margens da aprovação do mundo adulto.

U.S. COMIC BOOK BURNING

Ao longo das décadas de 40 e 50 as publicações em histórias em quadrinhos eram vistas com muita preocupação pelo público adulto, posto que era uma considerado uma sub-leitura e, por isso, nocivo ao desenvolvimento de um bom leitor.
Na década de 80 e 90, os jogos de representação de papéis, conhecidos como Roleplaying Game (ou simplesmente RPG) também foram alvo de afirmações negativas e contrárias à atividade que reúne pessoas, narrativas e ficção.
Embora os jogos eletrônicos possam ser considerados hipermidiáticos e imersivos (fugindo um pouco ao modelo proposto em relação ao conceito “cultura de massas”), no mundo dos games a situação não foi diferente.

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No final da década de 90 um jovem entrou num cinema e abriu fogo contra. Na investigação foi constatado que o criminoso tinha distúrbios mentais e passava horas jogando no computador títulos considerados violentos.

 

Marcelo Resende culpa Jogo de videogame em caso de assassinato

 

Neste ano, com o assassinato de uma família inteira pelo próprio filho no começo de agosto deste ano, procuram justificar um crime com base na produção cultural que nem sempre está em sintonia com o mundo adulto, acabando por infantilizar a relação entre sujeito e produto. Novamente, procuram elementos para justificar o injustificável.
Não sou da área, mas acredito que qualquer coisa pode engatilhar uma atitude violenta, depressiva ou qualquer sorte fenômenos psicológicos ou psiquiátricos que não vou me arriscar aqui. Agora, apontar que este ou aquele jogo, filme, ou qualquer modalidade de diversão como causador isolado do crime é um equívoco.
Inúmeros chefes de família, professores, engenheiros, motoristas, seguranças, técnicos em TI, médicos e toda uma gama de profissionais se utilizam dos RPGs, quadrinhos, animes, videogames, cinemas e até literatura como um hobbie. Estes profissionais cumprem suas responsabilidades para com suas famílias e com a sociedade e, inclusive, os games, os Hqs, e toda uma gama de cultura pop (ou nerd, ou geek, etc) estão sendo utilizadas para pensar a sua profissão e rever métodos, práticas e tendências aos olhos da sua diversão.

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Exemplo disso são os simuladores utilizados cada vez mais na formação de profissionais, jogos de mesa que focam na formação de equipes na área de administração de empresas ou os RPGs e a sua estrutura rica em ficção na formação de roteristas de cinema, de jogos eletrônicos e teatro.
Se o indivíduo possui um quadro clínico que possa prejudicá-lo, podemos até admitir ressalvas quanto ao uso de determinada diversão sob o risco de agravar ou incitar determinada atitude. Fora isso, o resto é especulação e pré conceito sobre práticas culturais nem sempre aprovadas pelos adultos. É preciso cautela e, acima de tudo, deixar a especulação de lado, respeitando principalmente os familiares numa tragédia e deixando as decisões e pareceres para as autoridades competentes.

 

Sobre o Autor:

Edson Cupertino é Mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo – USP, Licenciado em História pela Universidade de Santo Amaro (UNISA) e amante de quadrinhos, jogos de RPG e videogame. Utiliza o potencial dos games e dos Roleplaying Games como ferramenta educacional e para compreender os processos narrativos que permeiam as produções contemporâneas ficcionais. Foi autor do livro “Vamos jogar RPG? Diálogos com a literatura, o autor e a autoria” pela Editora 24×7.

Uma reunião para reflexão

A nossa contemporaneidade está repleta de casos de desencontros de toda ordem. Vivemos na era da informação rápida, facilmente adquirida, mas parece que vem crescendo a nossa dificuldade em lidar com problemas domésticos, como o diálogo com nossos filhos, irmãos e pais.
Nesse sentido, foi proposto na sala sob minha coordenação na EMEF Vargem Grande um convite à reflexão sobre os encontros e desencontros que permeiam a difícil relação constantemente construída entre pais e filhos e como é possível (e necessário) abrir um canal de comunicação propondo o diálogo e reafirmando o que todos (pais, professores e até mesmo os próprios alunos) esperam: sucesso e felicidade na vida.
A atividade foi dividida em dois momentos, primeiramente os alunos confeccionaram uma carta (sim, aula de história é uma volta ao passado), com remetente, destinatário e tudo que tem direito (alguns até mesmo fizeram o desenho do selo dos Correios). Neste momento cada jovem pode expressar ao seu responsável os resultados do bimestre, as dificuldades e os avanços obtidos, além de pontuar onde seria possível melhorar para o próximo bimestre. Embora tenha o professor garantido o sigilo da correspondência, todos foram alertados para o compromisso em manter um tom amigável e respeitoso para com o seu parente, afinal, mesmo sem compreender muito bem, é importante deixar claro que é desejo de todos o bem do adolescente.
Num segundo momento, já na reunião de pais, foram explicados os motivos da atividade e a natureza da carta e o seu gênero. Foi discutido também sobre esses desencontros e encontros que marcam as relações entre pais e filhos e, para finalizar, foi lido o livro “Papai e eu, às vezes”, escaneado para impactar a todos durante a leitura com as belas ilustrações da obra.

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A entrega dos boletins foi emocionante, com inúmeros pais recebendo com muito carinho a correspondência do filho, além do boletim. Sempre orientando os pais que trata-se de um momento de reflexão e ação da parte de todos para um Terceiro Bimestre melhor.
Ao final da reunião, uma mãe procurou o professor para elogiar a conduta, afirmando que nem mesmo a sua experiência de reunião de pais em escola particular propiciou um momento diferenciado (era tudo rápido segundo ela…. era receber o boletim e ir embora).

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Não sou de ficar relatando ocorridos em sala, não me sinto professor estrela que sempre tem urgência em mostrar o seu serviço. Acredito no contrário: meu trabalho é silencioso, mas repleto de responsabilidades e de desejo por colaborar em mudar a sociedade, mesmo que essa mudança seja tímida. Simplesmente acredito que, de uma forma ou de outra, a atividade contribuiu para uma reflexão entre pais, filhos e professor e gostaria de compartilhar o sucesso da atividade e a sua boa aceitação por parte da comunidade e da equipe gestora.